Quem é você no DESAMPARO e no CONFLITO?

Mais que um texto de reflexão esse é um capítulo aberto do livro da minha vida e por ele reclamo o respeito que todas nós merecemos – e você vai entender o porquê.

Quero acreditar que se você está aqui e lendo esse texto é porque você deve ser consciente das típicas polaridades femininas: circular entre a exposição social “infalível” e aquele lugar frágil e solitário que só nós conhecemos tão bem!

É sobre esse lugar solitário, escondido quase que com um gosto de vergonha, à sete chaves, que eu quero falar hoje.

Em novembro de 2025 fiz uma viagem de três semanas ao Brasil, pela primeira vez sem o Dani. Para quem não sabe mudei para a Europa em 2015, sou casada com um espanhol valioso, já morei na Inglaterra e no momento desse texto moro em Alicante, Espanha.

Já fazia quase um ano e meio que não via a “minha” família, não comia as “minhas” comidas, não caminhava pelo “meu” bairro, não encontrava os “meus” amigos, não sentia os cheiros “de casa”.

Foram três semanas maravilhosas. Desde 2015 já tinha voltado diversas vezes ao Brasil e dessa vez não tinha nada muito novo para fazer. Novo mesmo era estar sem o Dani.

Arrisco dizer que foi uma viagem de volta a mim mesma. Digo que “arrisco dizer” porque na verdade quando a gente sai do nosso país por tanto tempo nos tornamos pessoas de qualquer lugar e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Os expatriados e imigrantes vão me entender.

Revi pessoas amadas, conheci clientes muito especiais que só conhecia virtualmente, comi tudo o que quis, enfim, VIVI!

Mas chegando de volta em casa (na Espanha) me deparei com a sensação de que tinha sido despejada da minha própria vida, de acordos seguros, das minhas promessa de futuro.

Vivo em um apartamento de aproximadamente 50 metros quadrados que é minha casa, meu consultório e meu refúgio, e como toda casa a gente sempre tem algo de reforma ou ajuste para fazer. A nossa não é diferente. Uma das coisas que mais precisávamos fazer era melhorar o isolamento acústico no nosso quarto porque nosso sono é sagrado e a estrutura do prédio onde moramos é muito antiga e deficiente nesse sentido.

Até aí tudo bem. Mas antes de ir para o Brasil eu deixe claro para o Dani que agora não era a hora de fazer isso e muito menos ser feito por ele. A gente já tinha feito juntos três paredes no passado e é uma revolução: pó, bagunça, cansaço, tempo e gastos que sempre passam do previsto. Levamos uma vida ocupadíssima e o objetivo era pagar para que um profissional cuidasse disso mais para frente.

O Dani foi me buscar no aeroporto de Alicante, viemos para casa e quando entramos em casa ele disse feliz e orgulhoso: “surpresa!”.

O chão saiu debaixo dos meus pés, senti um nó na garganta, uma vontade de chorar, um vazio no peito (ou seria um aperto?, não sei).

Ele fez o isolamento – exatamente como tínhamos combinado de não fazer.

O apartamento estava “organizado e limpo”. Um esforço imenso da parte dele, é verdade. Mas foi a primeira vez que uma camada fina de pó no apartamento inteiro conseguia fazer um eco na minha cabeça.

Gastamos muito menos do que se a gente tivesse contratado um profissional, foi feito com mais qualidade porque o Dani é cuidadoso e detalhista e solucionamos o problema com barulho.

Qualquer pessoa no meu lugar se sentiria presenteada, privilegiada, bem cuidada e feliz!

Mas nesse momento eu só conseguia me sentir desamparada, sozinha e com vontade de chorar (ou de gritar? só Deus sabe).

Me perguntava: “Mas e o nosso combinado? Eu fui clara, disse que não era para fazer nada disso. Eu não conto nesse casa? Cheguei de viagem, com a bateria recarregada e agora tenho que escolher entre limpar esse pó que entra em todas as brechas dessa casa ou ter uma crise alérgica por semanas. Não é justo! Que deslealdade! Eu quero desaparecer!”

E tudo rodava como se eu tivesse perdido o controle.

Dez segundos se passaram. Além de sozinha e com dor no coração (real!), comecei a sentir culpa: “E a gratidão Camila, não voltou de férias?”, “Não seja insatisfeita”, “Imagina só o trabalho, o esforço do Dani por dias, sem a sua ajuda”.

O nosso amigo “Conflito” não deixaria de fazer a sua nobre visita para aumentar a dor e diminuir a legitimidade dos meus sentimentos.

Imagina por um momento como VOCÊ se sentiria ao desabafar com outra mulher sobre isso, sem querer criticar o seu marido, mas também sem merecer ser julgada e precisando se sentir acolhida. Hmmmm difícil né?

Hoje em dia as pessoas mal ouvem o que você diz e já te julgam ou resolvem o seu problema da forma mais minimalista possível – aqui quase todas nós temos teto de vidro.

E com que cara eu ia dizer para alguém que o meu marido fez “tudo isso por mim, pela gente” mas a minha vontade era desaparecer de tanta decepção até raiva talvez? Quantas mulheres na face desse planeta teriam a coragem de dizer “eu te entendo!”? Quantas assumiriam ter vivido esse conflito, sem medo de que ela e seu casamento fossem julgados? Poucas, bem poucas.

É minha querida esse é o desamparo e o conflito que TODAS vivemos caladas em um “quarto solitário”, como se qualquer palavra fosse usada contra nós no tribunal.

Depois de tanto “vai e vem” na minha mente e coração, eu chorei, chorei, chorei, chorei, chorei, chorei tudo.

Chorei a dor, a frustração, a traição de acordos, a falta de respeito, a necessidade de fazer algo que eu não queria (limpar), o enterro as minhas férias, a vontade de voltar para a minha casa que não está em lugar nenhum, a vergonha, a impotência, a gratidão que chegou tarde demais, o marido valioso que ficou sem o meu sorriso e abraço de “muito obrigada por tudo”, as qualidades que eu não tenho, as qualidades que me sobram, o vazio dentro do meu peito, a força que eu tenho e a que me faltou.

Foi conflito acolhendo conflito, conflito afogando conflito e mais conflito tentando sobreviver.

A cor era cinza e o coração estava meio apagado.

Essa foto foi de alguns dias depois, quando eu já lidava com mais naturalidade com a nova decoração rústica temporária, até terminar o que faltava.

Como processar e digerir essa experiência para que dela pudesse sair uma Camila melhor?

Ser capaz de “Perceber e Acolher” a dor do desamparo e do conflito, mesmo estando nesse lugar incompreendido e solitário, sem medo, é a única maneira de curar a dor e florescer.

Não era preciso “des-culpar” nem pedir “des-culpas” porque não era uma questão de culpa. Era uma questão de sentir.

Eu só precisava sentir e esperar, ia passar, eu ia voltar. E eu voltei.

Voltei reequilibrada, regulada, no meu tempo, sem o maltrato do julgamento severo e da culpa. Mas por décadas isso foi muito diferente, eu tinha pressa, eu evitava e lutava contra o que acontecia no meu mundo interior, eu sofria muito mais e avançava menos. Esse é um processo gradativo e sofisticado que acontece de dentro para fora.

Feliz de quem tem uma terapeuta para chamar de “sua” e um abraço “sem vergonha de dizer que te entende” onde morar por uns instantes. Uma as minhas missões é construir na terapia mulheres que sejam capazes de oferecer isso para outras mulheres.

Aprendi, especialmente a partir dessa experiência, que o meu lugar como profissional vai além da exemplaridade como profissional, vai além das perguntas bem feitas, da aplicação de técnicas modernas, dos limites nas relações.

O meu lugar é onde a minha vulnerabilidade é a conexão e não a separação.

Você muito provavelmente já se sentiu desamparada e em conflito, talvez esteja se sentindo assim nesse momento, mas para que a próxima vez tenha um final mais feliz, eu só tenho um convite a fazer. Te convido a se perguntar:

Quando me vejo nesse lugar eu escolho me perder ou me reencontrar?

 

Com acolhimento,

Camila Caioni

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